por Aline

Julho. Mês de férias, mês de viagens, brincadeiras, diversão, cujo único problema é ser interrompido por Agosto.

Pelo menos era assim pra mim há alguns anos, quando trabalho era só aquela meia dúzia de folhas que você entregava para a professora (sem sumário, sem folha de rosto, sem resumo, sem aquele monte de porcarias que você aprende a fazer na faculdade!) com uma pesquisinha fuleira que você fez na véspera.

Ô vida boa. É legal matar um pouco da saudade da infância não só tirando férias de verdade em Julho (owww, isso é muito bom!), mas também assistindo filmes que trazem esse tema em evidência, como é o caso de “Onde vivem os monstros”.

O filme do diretor Spike Jonze é um filme profundo e melancólico, como não deixa de ser a própria infância. Ele relata os sentimentos e inseguranças infantis por meio da imaginação de um menino.

Um dos grandes méritos dos roteiristas foi transformar o famoso livro infantil de Maurice Sendak, “Where The Wild Things Are”, que tem pouquíssimas páginas, pouca narrativa e muitas ilustrações, num filme de 1h40. E conseguiram, fizeram um ótimo filme. Aliás, o visual do longa, tanto a fotografia quanto a construção dos monstros, é um dos seus pontos altos. 

Na história vemos Max, uma criança comum, mas solitária, que, ao se deparar com dramas da vida adulta, como o novo namorado da mãe e os amigos da irmã, se fecha em seu próprio mundo. Como forma de defesa e para chamar a atenção da mãe o menino se torna agressivo. Assustado com a furiosa repreensão materna, Max foge de casa e de alguma forma (familiarmente estranha…) vai parar no mundo dos monstros. Lá o garoto da língua afiada consegue convencer as criaturas locais, contando uma história a la Barnabé, de que é um ser poderoso e tornando-se assim o rei deles.

Os monstros do título são claramente personificações das características do próprio Max. KW representa as própria mãe e irmã, o sentimento de carinho e proteção, mas também o do abandono, uma vez que elas deixam a família para ficar com os amigos; Ira representa sua criatividade; Douglas, sua lealdade; Judith, seu ceticismo; Alexander é sua necessidade de ser ouvido; o Touro é sua introspecção; enquanto Carol personifica seus atos impulsivos, o medo de perder as pessoas que ama e a necessidade de manter a família junta, longe dos “invasores”. Não à toa, é de Carol que o menino se torna mais próximo.

Durante o filme Max reconhece os próprios sentimentos e aprende com eles, mas esse processo é duro tanto pra ele quanto pro espectador que o acompanha. Por vários momentos ficamos apreensivos diante da crueza dos sentimentos representados pelos monstros. A fotografia do filme não tem a pretensão de tornar a ilha dos monstros um lugar agradável, não é um mundo fantástico cheio de cores, mas seco, sujo e o deserto e paisagem frequente. Para complementar, a trilha sonora de Karen O. é bonita, mas, como praticamente tudo no filme, bem melancólica.    

Enfim, acho que “Onde vivem os monstros” acaba por nos mostrar o quanto é difícil encarar a realidade e, forçadamente, precisar amadurecer. Não são ‘monstros’ engraçadinhos ou bobos que enfrentamos no caminho, pois aquilo que criamos dentro de nós sempre é mais terrível e difícil de ser transpassado do que obstáculo externos.

Está aí uma boa dica para “férias”. Ou simplesmente pra quem está a fim de assistir a um bom filme.

Ilha do Medo

março 29, 2010

Uma coisa que procuro evitar fazer ao assistir um filme é criar muitas expectativas sobre ele. Expectativas boas ou ruins. É uma forma de aproveitar melhor o longa e, convenhamos, ser mais justo na hora de analisá-lo. Mas confesso que não consegui ir muito isenta assistir à Ilha do Medo. Martin Scorsese na frente do um suspense, com um elenco de primeira e com uma sinopse no mínimo instigante foram demais pra que eu resistisse à tentação de ficar ansiosa. Dos males o menor, pois não me decepcionei. Muito pelo contrário. O filme de Scorsese consegue prender o espectador ao longo de todos os seus 138 minutos de duração com um roteiro inteligente e momentos de tensão muito bem construídos.

A história começa com uma densa neblina, que aos poucos revela a balsa que leva o protagonista, o agente federal Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio), para a ilha Shutter, a fim de investigar a fuga de uma paciente da prisão psiquiátrica que está instalada no local. O agente é uma pessoa perturbada pela morte da esposa Dolores (Michelle Williams) num incêndio provocado por um piromaníaco, e demonstra claramente sua incapacidade de superar o trauma, seja com seus angustiantes delírios, seja com o uso, sutil, da gravata verde presenteada por ela. Daniels chega à ilha na companhia do parceiro Chuck Aule (Mark Ruffalo) e eles são levados diretamente ao hospital psiquiátrico. A câmera acompanha o olhar dos agentes durante a passagem pelos imensos portões da prisão e a trilha de John Cage, que vai aumentando quanto mais perto “chegamos” da entrada, nos leva a sentir apreensão pelo que os personagens vão encontrar pela frente.

A atuação de Leonardo DiCaprio é impressionante. O personagem é muito complexo e difícil, mas o ator se sai muito bem no trabalho de dar vida ao atormentado agente. Mark Ruffalo interpreta bem o simpático Chuck, enquanto Ben Kingsley (o gigante!) está incrível como o dúbio Dr. Cawley. Destaque para a participação de Ted Levine como o diretor do hospício. Depois de um tenso diálogo entre ele e Daniels, somos levados a acreditar que ele é tão louco quanto os pacientes.

A fotografia de Ilha do Medo é um capítulo a parte. Extremamente eficaz e bem construída, ela nos conduz imediatamente a atmosfera do filme. A realidade sombria contrasta com o visual colorido dos sonhos e flashbacks. A montagem também faz um excelente trabalho, reforçando a idéia de sonho nos delírios de Daniels, como nos cortes nos movimentos da personagem de Michelle Williams, ou no belíssimo corte do hospital para os rochedos, quando os agentes e funcionários do local estão procurando pela fugitiva.

Para quem achou o filme confuso, talvez a uma segunda vista ele possa parecer muito mais claro, pois ao longo dele muitas pistas são dispostas. Desde a falta de jeito de policial de Chuck, passando pelos estranhos sonhos de Daniels (no primeiro Dolores aparece molhada, sangrando e só depois é carbonizada) e no próprio clima de loucura e desconfiança a que somos expostos durante a história.

Definitivamente o filme fica de dica pra quem está querendo uma ver uma ótima história. Ao contrário das minhas expectativas quanto ao público no cinema, minha sessão para o filme estava lotada, durante a exibição não houve muita manifestação e muitos saíram da sala discutindo seu desfecho, suas idéias, seus símbolos. É recompensador ver o cinema, ainda mais Martin Scorsese, dessa forma.

Aline