Onde as coisas selvagens estão…

julho 16, 2010

por Aline

Julho. Mês de férias, mês de viagens, brincadeiras, diversão, cujo único problema é ser interrompido por Agosto.

Pelo menos era assim pra mim há alguns anos, quando trabalho era só aquela meia dúzia de folhas que você entregava para a professora (sem sumário, sem folha de rosto, sem resumo, sem aquele monte de porcarias que você aprende a fazer na faculdade!) com uma pesquisinha fuleira que você fez na véspera.

Ô vida boa. É legal matar um pouco da saudade da infância não só tirando férias de verdade em Julho (owww, isso é muito bom!), mas também assistindo filmes que trazem esse tema em evidência, como é o caso de “Onde vivem os monstros”.

O filme do diretor Spike Jonze é um filme profundo e melancólico, como não deixa de ser a própria infância. Ele relata os sentimentos e inseguranças infantis por meio da imaginação de um menino.

Um dos grandes méritos dos roteiristas foi transformar o famoso livro infantil de Maurice Sendak, “Where The Wild Things Are”, que tem pouquíssimas páginas, pouca narrativa e muitas ilustrações, num filme de 1h40. E conseguiram, fizeram um ótimo filme. Aliás, o visual do longa, tanto a fotografia quanto a construção dos monstros, é um dos seus pontos altos. 

Na história vemos Max, uma criança comum, mas solitária, que, ao se deparar com dramas da vida adulta, como o novo namorado da mãe e os amigos da irmã, se fecha em seu próprio mundo. Como forma de defesa e para chamar a atenção da mãe o menino se torna agressivo. Assustado com a furiosa repreensão materna, Max foge de casa e de alguma forma (familiarmente estranha…) vai parar no mundo dos monstros. Lá o garoto da língua afiada consegue convencer as criaturas locais, contando uma história a la Barnabé, de que é um ser poderoso e tornando-se assim o rei deles.

Os monstros do título são claramente personificações das características do próprio Max. KW representa as própria mãe e irmã, o sentimento de carinho e proteção, mas também o do abandono, uma vez que elas deixam a família para ficar com os amigos; Ira representa sua criatividade; Douglas, sua lealdade; Judith, seu ceticismo; Alexander é sua necessidade de ser ouvido; o Touro é sua introspecção; enquanto Carol personifica seus atos impulsivos, o medo de perder as pessoas que ama e a necessidade de manter a família junta, longe dos “invasores”. Não à toa, é de Carol que o menino se torna mais próximo.

Durante o filme Max reconhece os próprios sentimentos e aprende com eles, mas esse processo é duro tanto pra ele quanto pro espectador que o acompanha. Por vários momentos ficamos apreensivos diante da crueza dos sentimentos representados pelos monstros. A fotografia do filme não tem a pretensão de tornar a ilha dos monstros um lugar agradável, não é um mundo fantástico cheio de cores, mas seco, sujo e o deserto e paisagem frequente. Para complementar, a trilha sonora de Karen O. é bonita, mas, como praticamente tudo no filme, bem melancólica.    

Enfim, acho que “Onde vivem os monstros” acaba por nos mostrar o quanto é difícil encarar a realidade e, forçadamente, precisar amadurecer. Não são ‘monstros’ engraçadinhos ou bobos que enfrentamos no caminho, pois aquilo que criamos dentro de nós sempre é mais terrível e difícil de ser transpassado do que obstáculo externos.

Está aí uma boa dica para “férias”. Ou simplesmente pra quem está a fim de assistir a um bom filme.

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